terça-feira, 12 de outubro de 2010

Partidas do destino

Por: António Centeio

Ainda pequenino, quando seus pais o levavam a passear até ao Paredão gostava de ver o mundo que o rodeava como tudo aquilo que o fazia funcionar. Às vezes perdia-se no tempo para que pudesse mirar o que mais lhe intrigava ou chamava a atenção Na tenra idade, quando tinha duvidas sobre o desconhecido, puxava as calças do pai para que este lhe desse atenção e explicasse por palavras fáceis de compreender aquilo que não sabia. Talvez por estas e outras razões bem cedo começou a mostrar um certa inteligência e um gosto pelo saber como «não pensar noutra coisa enquanto não descobrisse a causa da primeira».
Foi na longa avenida nazarena que pela primeira vez viu uma cigana perseguindo o pai para que lhe deixasse «ler a sina». Diálogo difícil porque o pai não acreditava nestas coisas de «sinas e muito menos na lengalenga das ciganas» que via neste método uma forma de ganhar a vida à custa da curiosidade ou ignorância dos outros, mas a mãe achou graça à desenvoltura da pequena nómada pedindo-lhe então que lesse as linhas das mãos do petiz.
O resultado foi que o casal durante semanas andou às avessas pelo que foi lido. Não levaram a coisa a sério mas Pedro levou. O resto da vida foi passado a remoer o que ouviu em criança. Nunca se esqueceu do que a saltimbanca lhe disse. «Nunca andes de avião porque se o fizeres morrerás». A partir do dia em que tais palavras foram ditas, quem pequeno foi e homem se tornou, fez os possíveis e impossíveis para nunca andar de avião.
De formação académica, dificilmente deixava alguém indiferente. Culto na convivência com os amigos estes espicaçava para não acreditar no oráculo, o que aliás até lhe «ficava mal» visto ser um doutor famoso na região em cuja capacidade e talento os doentes confiavam plenamente.
Acreditava um pouco nas «partidas do destino» como nunca se esqueceu do «olhar esquisito da cigana» para além de «nunca devemos renunciar naquilo em que acreditamos». Por mais que tentassem convencê-lo a viajar de avião, a resposta era sempre negativa. Não bastasse, em termos de humor diziam-lhe os mais chegados «devemos olhar para traz e sorrir dos pesadelos passados».
Quando ia aos congressos da especialidade levados a efeito nos mais variados países usava todos os meios de transporte, menos o aéreo. Foi preciso um colega seu convidá-lo para ser padrinho de um dos seus filhos, cujo baptizado se realizou no Barlavento, para no fim de quase cinco décadas anos Pedro andar pela primeira vez de avião (Lisboa-Faro) .
«Quando se chega aos cinquenta anos, já se conhecerem todos os sentimentos fortes da vida e começa-se a ter outro distanciamento em relação da mesma» dizia-lhe o companheiro de viagem.
A viagem decorreu da melhor forma com o tempo passado na cavaqueira de detalhes profissionais. A situação do país também não deixou de vir à baila como discutiram os colóquios que se aproximavam porquanto tinha terminado a época de férias, altura em que os professores aliviam a agenda. Na mira, estava o mais importante, onde um consagrado neuro-cirurgião ia apresentar publicamente os resultados de um estudo.
O avião fez-se à pista e aterrou com normalidade, levando a que o colega e futuro compadre lhe dissesse que a sina afinal mais não tinha sido que «conversa fiada». Pedro e o amigo foram os primeiros a sair. Por razões desconhecidas ao descer o primeiro degrau da escada Pedro desequilibrou-se, batendo com a cabeça num degrau e vindo de seguida a rebolar pelos restantes, de tal forma, que teve morte imediata. Foi a sua primeira e última viagem e a revelação realizou-se.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Daniel, o amigo dos pássaros



Por: António Centeio

Daniel é um miúdo desinquieto que mais parece uma enguia. Por mais que ralhem pior faz. Tem meia dúzia e poucos anos mas já sabe mais que alguns adultos. Nos dias longos, arma-se de espadeiro, e vai daí, com um bocado de pau a imitar uma cruz, parece um espadachim na baixeza do mar. Meteu na cabeça que as ondas têm medo dele, que em vez de lutar com espécies de gente como ele guerreia com o mar. Não deixa de ser mau rapaz. Tem apenas o feitio dele.
A mãe tem um pequeno bar à beira-mar onde vende um pouco de tudo e mais alguma coisa, porque o marido em devido tempo, marimbou-se para ela e para o filho por causa de uma descoberta que teve com uma matrafona qualquer que lhe soube dar a volta, pouco se importando dos estragos que deixou para trás como de quem ia sofrer com as consequências.
Então não teve outro remédio que pedir licença ao cabo-de-mar que lhe permitisse abrir a barraquita para sustento do seu filho esguio, pedindo em troca a quem manda nas bordas do mar, que tapasse os olhos ao que os homens da capital deliberam, de maneira a que não tivesse de ter um ou dois miúdos crescidos para fazerem de nadador-salvador caso contrário, os trocos ganhos ao fim do dia levavam um corte que mal daria para os ganhos da casa e sustento do filho, para além de ter que pagar os estragos que este entendia fazer quando os veraneantes andavam de férias.
As boladas que o entorpecido mandava de tempos a tempos para cima dos que descansavam, depois de uns meses a trabalhar, acabava sempre nalguma geladeira partida ou pratos, que tinham no seu interior papas para os bebés, voltados de pernas para o ar.
Tudo acabava num valente ralhete de quem era dono do atingido ou em meia dúzia de tabefes, quando não dava origem a algumas correrias pela areia, de maneira que o adulto desse pela grossa a quem fez os estragos.
Como quem não quer a coisa, ou após reconhecido o descuido de algum banhista, a espaços de tempo, lá surripiava um telemóvel, que a coisa até têm uns jogitos, e sempre, lhe dava a graça de falar com desconhecidos. Se o ouvinte lhe perguntasse quem era ou como estava em posse de tal objecto a resposta algarviada era sempre um esmerado conselho «Tem alguma coisa a ver com isso?».
Se farto de falar, ou de lhe cortarem o pio, o mesmo embarcava logo, sem destino marcado, nas águas do oceano.
Fora disto, Daniel é um pacato cachopo que nos dias mais escuros fica sempre nostálgico, fazendo grandes caminhadas junto ao rebentar das ondas.
Tantas, que às vezes atravessa o areal de uma ponta à outra. Em vez de olhar no horizontal olha para a areia, dando pontapés, como que, de debaixo desta, viesse algum telemóvel desaparecido ou amêijoa.
Com o boné metido na cabeça, de pala para trás, sempre que ouve o barulho de alguma gaivota, branca ou cinzenta, abranda o passo para apanhar a mais desprevenida. Tentativas levadas pelo Vento mas que fazem com que nunca desmereça. Um dia satisfez a vontade. Quando repetia as passadas e os hábitos, houve uma que o esperava, nem queria acreditar.
A meia esguelha, o pássaro olhava-o de frente, levando que perguntasse a si próprio, se era verdade o que estava vendo. O raio do bicho, nem uma nem duas. Apenas tinha o corpo meio inclinado como um barco quando assente na calha. Apanhou-a antes que levantasse asa.
Foi quando viu que a pobre ave tinha uma asa partida. Levou-a logo para o «Bar do Cachucho» para mostrar à mãe e lhe pedir, que a dita passasse a fazer parte do património. Sempre chamava mais clientes e curiosos. «As crianças vão querer vê-la, mãe! Sempre compram mais uns geladitos e os trocos aumentam aí na gaveta do cascalho».
«Nem penses meu marafado duma figa! És tonto ou quê? Os clientes até iam pensar que a barraca é algum galinheiro. Põe-te a andar daqui para fora com a porcaria da gaivota. Não a quero ver aqui, nem a ti».
Durante dois dias, a pobre alma percorreu a praia e arredores em busca do desalmado filho que não lhe dava sossego nenhum, pregando-lhe agora uma partida, já que nem lhe disse para onde foi como das razões da ausência.
Não bastava já o «desmiolado do fulano lisboeta ter aumentado os impostos, que arranjou a maneira dos clientes, em vez de comprarem alguma coisa, só se queixarem do aumento e da crise» quanto mais agora lhe desaparecer o miúdo.
Quando se apresentou na esquadra contando o sucedido, os policias em vez de a animarem deram todos numa risota e galhofada que a pobre mulher já não sabia se «estava tonta ou se a estavam a fazer de maluca».
Todos conheciam o raio do rapaz, que de vez em quando teimava em fazer partidas a quem descansava, obrigando os agentes a fazer com que os visitantes desistissem da queixa, senão era uma trabalheira preencher o auto, visto que o bedelho era menor e daqui, os incómodos que daria como os transtornos que causaria aos adultos. Tudo lá se resolvia amigavelmente, sem ninguém ser prejudicado, para acabar tudo em família, depois de aplicados alguns açoites no moço.
Mas quando a «mulher da tasca» como lhe chamam, os ameaçou que ia imediatamente fazer queixa aos superiores, lá se propuseram fazer uma busca ao fugitivo. Levaram mais três dias a encontrá-lo. Estava encaixado dentro de uma gruta, a caminho do início do Barlavento.
Dormia como uma pedra, tendo a seu lado a gaivota, que estava «tesa como um carapau» assim disse o mais graduado, tendo a mãe pedido desculpa de tais transtornos, mas o «corno do cachopo não ganha juízo de maneira alguma».

Gabriel, um trabalhador acusado de assaltante





Por: António Centeio

É, e sempre foi um trabalhador exemplar – nunca gostou que lhe chamassem empregado. Ainda o patrão, não chegou à Fábrica dos Pirolitos e já aguarda a abertura dos portões para poder entrar.
É sempre o primeiro a comparecer na enorme extensão que nas horas de movimento acolhem as camionetas que descarregam e voltam a carregar o vasilhame daquilo que beberam e que outros irão consumir.
Sempre gostou de ser o primeiro a entrar para ser o último a sair mesmo que algumas vezes o patrão lhe tenha que pedir para se retirar porque quer fechar o que abriu.
- Desculpe senhor Alfredo mas a minha máquina tem que ficar como um brinquinho.
Todos o estimam e admiram pela sua entrega e dedicação à fabriqueta, não isentando que não haja este ou aquele que nas suas costas diga mal de quem não prejudica ninguém.
Talvez seja aquele trabalhador que todos os patrões gostariam de ter. Cá fora, da fábrica, todos o conhecem como o apreciam por se preocupar com tudo e todos.
- Então vizinha, a sua Mariazinha está melhor? Estas malditas gripes! Não desanime que melhores dias virão.
Se sabe dalguma desgraça, vai logo perguntar se é preciso alguma coisa.
- Não se esqueça se o seu marido precisar de sangue, quando for operado, estou pronto a dar do meu».
Quando a sua vizinha do terceiro sentiu as dores de parto, foi ele que a levou para o hospital de madrugada – o marido estava num curso qualquer de formação. Desapareciam as estrelas do Céu e já regressava na sua velha carripana, do tempo da guerra a caminho da Fábrica Peninsular de Pirolitos.
Bela dia, estava a trabalhar quando um agente de autoridade compareceu na dita, notificando-o para se apresentar na esquadra.
- Eu, ir à esquadra? Mas não fiz nada!
O polícia que o conhecia, disse-lhe para não se enervar que tudo se resolveria a contento. Com a breca, isto é que não estava previsto. «Notificado para ir à polícia?» Não pode ser verdade!
Para quem anda dentro das esteiras devia ser coisa complicada ou então algum engano.
- C’um raio!...Não te preocupes filho duma zíngara, não há-de ser nada de grave, disse o patrão para lhe acrescentar – cá estarei para te ajudar a desfazer esse enredo. Não te conhecesse há um carradão de anos; agora como te conheço, descansa que até vou contigo para sossegares.
A chefe da esquadra, por acaso uma bela moçoila, que até sempre viveu no bairro do agora notificado, conhecia como ninguém o Gabriel, daqui esta burocracia, mais não ser que um mau entendido, vinda de outras bandas.
- Sente-se ali naquele cadeira, vizinho Gabriel, para de seguida puxar por um enorme calhamaço:
- Diz aqui, que a sua viatura participou num assalto a uma ourivesaria lá para os lados do Algarve! Claro que isto mais não é do que uma enorme confusão, mas das grandes, atirou-lhe como informação a graduada.
O pobre Gabriel, quando ouviu o conteúdo do averbamento até mudou de cor ao ouvir do que era acusado.
- O meu carro? Mas não pode ser verdade, senhora chefe!
- Ó vizinho deixe-se lá dessas coisas e trate-me como sempre tratou. Qual chefe qual carapuça. Vizinha e acabou.
Apresentado o relatório, cedo se verificou que algum amigo do alheio, falsificou a matrícula do carro dos larápios. O azar calhou ao Gabriel.
Como um relâmpago, resolveu-se logo a questão.
- Gabriel, que o seu patrão entregue fotocópias do boletim de ponto e que faça uma declaração em como no tal dia esteve a trabalhar.
Chamado que foi o patrão, mais disse:
- Ainda provo mais: trago a gravação da máquina que filma a entrada e saída dos carros na minha própria fábrica; lá, tem que estar de certeza absoluta, o do Gabriel.
No fim do dia estava desfeito o equívoco e desvendado a causa da notificação, acrescida na resposta, de um apêndice em que a entendida fazia ver por A mais B que tudo não passava de uma esperteza usual de quem anda no gamanço.
- Irra! Que ninguém pode dizer que está bem, desabafou Gabriel quando viu o auto encerrado. Há dias que um homem não pode sair de casa.
Isto é que se riu o empregador, abraçando o empregado, enquanto lhe dizia:
- Vai para casa descansar que hoje já tiveste a tua parte e, de que maneira!...

Não chora pelo presente nem pelo futuro mas pelo passado


Por: António Centeio


Patrícia, de seu nome, veio da terra das mil e uma flores. De cara como uma concha, olha para tudo que a rodeia. Quando se senta nos bancos que de frente estão para o rio, que tanto gosta de ver, seus olhos de gente grande espantam-se com o que vêem.
Do lado de lá, duas facetas antagónicas sobressaem. De um lado, o verde campo, o cantar dos galos, o alvoroço das galinhas e o amanho da terra. Mãos experientes tratam o que anteriormente foi posto nas suas entranhas para que mais tarde alimente quem plantou; do outro, a majestade da serra e a grandeza do silêncio que dela faz parte.
Existe no seu olhar, qualquer coisa de aventureira e de empreendedora. Quando for grande quer ter um bocado de terra para que nela, tudo um pouco possa plantar, a fim de poder fazer a colheita do que precisar.
Nos fins de tarde em que o Sol teima em ficar vermelho e consegue divisar através das folhas dos salgueiros, que fazem sombra sobre a água, olha para quem do lado oposto, está.
O verde das árvores e do prado deixam-na encantada. A casa de colmo com telha-vã, que no meio do verde se situa, recolhe o que apanhado foi para ao mesmo tempo fazer sombra a quem debaixo se recolhe.
Tem em cima da tropeça, uma grande alguidar de barro vidrado com a cor do meio em que está colocado. Dentro do mesmo, encontra-se várias peças de roupa, alguma de quem no dia anterior cavou o sustento. De corpo encurvado, com as pernas abertas para equilibrar o corpo, ensaboa-a para depois a esfregar, passando depois à torcedela.
Bem longe, ou bem perto, não sabe enxergar; os cornos da lua vão dando sinais que algo caminha para o fim. São horas de acabar o que faz falta e caminhar para a margem onde se situa a casa que chama de habitação. Bem perto desta, dois paus, que foram ramos de algum salgueiro, seguram um comprido e velho arame, carcomido do orvalho, que serve de estendal.
Peças de roupa são estendidas. Daqui a pouco e logo terminado, os tecidos molhados, que pelas cores contrastadas com o verde e o sol, parecem giestas em flor. Regressa então – sempre de cara amochada para a terra, que de tão pisada estar, já conhece os passos de quem a calcorreia – para a casa do fundo.
Pouco falta para que da amostra daquilo que deveria ser uma cantimplora, algum fumo começa a elevar-se para se juntar ao cinzento perdido que no ar ameaça chegar. Deve ser a hora da janta, pensa Patrícia, para se levantar e seguir para o adro da igreja.
Só daqui consegue ver tudo que a sua vista alcança. À sua direita, depois de bater com uma mão no pelourinho, encosta as pernas ao pequeno muro que a separa da baixeza, mesmo tendo a curta distância, do seu lado direito, a velha palmeira; um pouco mais longe uma chaminé, feita em tijolo burro de uma qualquer fabriqueta, que no passado deve ter destilado muito fruto de figueira.
Bem longe, vê que a bola do Céu vai desaparecendo aos poucos, mas com uma cor esquisita, dando-lhe a impressão que algo vai acontecer ou como que: o mundo ou a terra, já não seja o que foi. Não corre uma brisa nem sombra de nuvens no azul, que muito distante se quer estrelar. Ainda está quente a pedra do chão.
Por causa do calor da tarde anterior, até a erva está seca pela falta do orvalho da madrugada. De repente o Vento sopra, fazendo com que o que devia ser uma brisa, comece a se transformar num vento forte e assustador.
Vindo por detrás da serra, um negrão se aproxima, a passarada está num alvoroço. Até parece que as folhas se desapegam dos ramos que são a sua segurança nos dias quentes.
Ao voltar-se para a cruz que um pouco à sua frente está, repara que mudou de cor. Será impressão sua? Não é! O que vê é o início do aproximar da época fria, que se aproxima antes do tempo, que em tempo foi determinado.
Desce a correr o que subiu vagarosamente para de despedir da margem do rio que a susteve enquanto via coisas do lado de lá.
Chegada a casa, caiem os primeiros pingos grossos de uma chuva que durante meses molhará a calçada das Lapas como fará subir o nível do rio. Também a altura em que tudo que esteja cercado por orlas de árvores, ficará triste ou abandonado; tempo em que a solidão torna tudo cinzento para quem não tem onde ir.
Patrícia, sente as lágrimas que lhe correm pela face como as gotas que caiem em cima das telhas da sua casa, vindas das nuvens que há pouco vieram do lado escondido da serra. Chora, não pelo presente ou pelo futuro mas pelo passado; do tempo em que via a Ribeira da Peneda, vinda algures das entranhas da penhasco com o mesmo nome ou da Soajo. Também se lembra das quedas de água, das fragas graníticas, dos prados onde via garranos selvagens a pastar e o encantamento de alguns bosques.
Como Patrícia tem saudades de ver os campos de espigueiro? De trepar para se maravilhar das almas genuínas nas pontes de pedra; de ouvir histórias de homens que «o foral determinava que os fidalgos ali não pudessem demorar mais que o tempo de um pão saído do forno esfriar».
Nunca se esqueceu das palavras conselheiras do tio Álvaro «Um dia chegará a hora de partires. Antes dessa madrugada, quando andares pelas ruas, quando te cruzares com as pessoas e olhares para as suas casas, que a tua memória tudo guarde porque nunca mais tornarás a pisar as tuas raízes». Assim se cumpriu.
Não está arrependida de viver onde vive. As Lapas e o lado-de-lá do rio que nasce para os lados da Zibreira fazem com que sonhe com o dia em que terá um bocado de terra. Nessa altura então plantará aquilo que gosta de ver nos dias que se senta nas bordas do rio que por pouco não banha o seu poiso. Afinal é uma mulher do norte, de rija têmpera como o granito.

O mistério da mala de cartão



Por: António Centeio


Todos os meses fazem a sua viagem habitual até Vila Velha de Ródão. O velho automóvel já está habituado às subidas da serra. Nunca se queixa do esforço que lhe exigem como do peso que leva, talvez por a “A-23” fazer deslizar as suas rodas sem qualquer solavanco como nos tempos que saiu do “stand”.
Os ocupantes já não passam sem a beleza estonteante da serra como da paisagem que cativa quem a saiba apreciar. Depois, os cheiros que vem do interior da terra e das árvores fazem com que a viagem demore mais tempo do que é habitual. Paragem obrigatória é na primeira “Área de Serviço” para no sossego mais uma vez ser contemplado aquilo que «só do alto se pode ver». O arvoredo que confere a tranquilidade; a zona serrana que permite um profundo envolvimento com o meio, possibilitando desfrutar paisagens abertas, algumas majestosas em contraposição com espaços estreitos para visualizar ao mesmo tempo a união entre o azul do céu, por vezes também a neblina branca.
Disseram-lhes em tempo, que nesta pacata vila se costuma vender «os melhores queijos do país» feitos manualmente por mãos hábeis levando a que os seus produtores não precisem de andar por tudo que seja sítio a vendê-los. A fama do que sabem fazer permite-lhes apenas aguardar a chegada de quem de tão longe vem.
Argumenta, quem os faz, com uma pouco de razão, que a publicidade dos seus clientes é suficiente para «não chegar para as encomendas». Daqui aconselhar a quem não conheça o negócio que «nunca se aventure a fazer qualquer tipo de viagem sem contactar» quem tão bom queijo faz e vende, caso contrário, poderá chegar à localidade situada na encosta da serra e não trazer os seus queijos.
Quando acontece, depois de apresentadas as desculpas de quem tão bem sabe fazer os “salgadinhos e picantes” nada se fica a perder. A quem não conhece a “Ródão” um dos filhos faz de guia turístico mostrando tudo que seja digno de se ver nas redondezas como a barragem que água recebe vinda do “Tejo” explicando ao mesmo tempo que a “ dos Montes Ibéricos” calma é em toda a sua expansão para fazer com a sua largura uma das mais bonitas albufeiras, permitindo a quem saiba, deleitar-se com a beleza da pacata vila que fica nas costas de quem olha para a barragem. Simplesmente uma soberba paisagem. É assim que os “Queijos da Vila de Ródão” como de quem os faz se tornaram famosos levando a que diariamente dezenas de forasteiros visitem a localidade. É assim que se negoceia. Se não há matéria-prima para vender oferece-se a quem se deslocou alguns passeios como. Nada se perde, tudo se vende.
Foi numa destas viagem que o casal e respectivos acompanhantes ao aproximarem-se da “D’Ródão” viram à distância, estendida na berma da estrada uma velha e comprida mala de viagem, daquelas de cartão. Deduziram que a mesma tivesse caído de algum carro, daí, terem parado e apanhando-a para a levarem para o “porta-bagagens” do velho “Fiat” com o objectivo de ser averiguado quem seria o dono ou….verem o seu conteúdo já que algo indicava que vazia não estava.
«Quem sabe se não terá dados para se escrever um romance» disse um dos que se apearam, talvez por ter lido dias antes “Para lá da Porta Secreta” – livro de um escritor e contador de histórias, chamado “Centenius”. «Que fazer com o raio da mala, de tão velha se encontrar até parece ser do tempo da guerra?» perguntavam uns aos outros. Olhando para as redondezas o que viam era: fumo branco a sair da chaminé da fábrica, agora “vivalma” nem sombra.
Foi quando alguém de lembrou «Vamos levá-la. Em casa vamos abri-la e logo se verá o que tem ou de quem é». Assim foi. Feita e armazenada a encomenda do mês, no porta-bagagens que levou o queijeiro a espantar-se com tal relíquia, como a dizer alguns piropos menos impróprios para a situação do achado, voltaram para a cidade de onde tinham partido horas antes.
Mal estacionaram a viatura na garagem, a fim de se descarregar as compras, como o achado, depois de fechado o portão não fosse algum curioso pasmar-se com o que visse ou desse com a «língua nos dentes» a mala foi colocada em cima de uma mesa. «Até parece que achamos um tesouro» disse a dona da casa para se rirem numa forte gargalhada.
No momento em que meteram uma faca para rebentar as fechaduras da mala de cartão, de tão ferrugentas se encontrarem, ouviu-se logo um estalido que indicava a abertura. O silêncio que pairava permitia ouvir barulhos esquisitos que mais pareciam pessoas espreitando pelas fendas do portão como os miseráveis pescadores narrados no livro “A Pérola”. O incumbido de abrir o tesouro fez render a expectativa; o silêncio fez barulho; olhos vindos da escuridão esperavam pela descoberta obrigando a que o viajante mais novo gritasse «Deixe-se de lerias e abra é essa porra!». Ao mesmo tempo ouviram, vindo do cimo, um forte estrondo – era a inquilina do andar superior a partir no chão um tomate congelado.
Todos mudaram de cor, exclamando em coro «a mala está assombrada». Recompostos do susto a mala foi aberta. Apenas continha: duas velhas e sarnentas fotografias de aviões da “Segunda Grande Guerra”; três ou quatro bocados de papelão, do tamanho de uma caixa de fósforos, que indicavam: ser o escriba um forreta ou um qualquer “manga-de-alpaca” já que neles constava os gastos feitos em “compras para casa no mês de Julho” do longínquo ano de mil novecentos e cinquenta e dois.

Adalberto, um amigo porreirão



Por: António Centeio

Adalberto é um patusco e amigo da galhofa. Garganeiro, por defeito, não deixa de ser boa pessoa. Amigo de seu amigo está sempre pronto para a brincadeira. Leva os dias vagueando, no bom sentido, pelas ruas e ruelas da cidade, falando com este ou com aquele.
Pergunta a uns como vai a agricultura, a outros como vai a família e aqueloutros como vai a situação, porque segundo os seus conhecimentos, a coisa vai preta por causa da crise que o mundo atravessa, ou que atravessamos por via das asneiras dos outros. A haver, será sempre dos outros e nunca de nós.
Excepção, nos dias úteis, é o dia seguinte à segunda-feira. Dia de romaria e cavaqueira. Levanta-se bem cedo para assistir ao iniciar do dia e a fim de poder ver a montagem dos vendedores ambulantes no espaço a que alguns chamam de «Mercado Semanal». Nas redondezas do espaço ouve dizer: «um terreno valioso como este, de tão bem estar situado e com uma enorme ocupação semanal vendedores que nem factura passam mesmo sendo obrigatório) ser utilizado para outros fins ou encher a carteira a algum especulador? Nem pensar!».
Adalberto percorre de seguida com a sua calma de alentejano todo o espaço. Ouve aqui e acolá, para além ajuizar com velhos amigos o que antes ouviu. Assim pode ouvir o botar palavra de terceiros como fazer o seu próprio juízo, que nos dias que correm é preciso muito, se tomada em atenção for a idade da pessoa como dos que lhes juntam.
Por volta da metade do meio-dia, conforme os ponteiros das horas, vai arrancando a caminho de onde alguém o espera para lhe dar o merecido, obtido que foi das receitas dos rendimentos adquiridos em tempos passados por conta de outrém
Um sabichão disse-lhe: «pelo andamento que a coisa leva, qualquer dia nem para a sopa já chega». Quando pensa nas palavras do entendido, torna-se num desalmado e ralha com tudo e todos que o rodeiam, dando a impressão que são os culpados, mesmo que a sua velha Carminda, companheira que é há um ror de anos se compadeça sempre das malcriadices que vem da boca de quem tanto sabe.
Quando nas noites de tertúlia livre em que os vizinhos do bairro convivem na roda da mesa da sueca falando daquilo que todos falam, a noite passa a ser agoirenta para ficar também sem estrelas porque o «futuro está ameaçado por quem manda poupar mas não rentabiliza o que na sua posse está» ou não rentabilizou em devido tempo aquilo que deveria ser o sustento e de quem trabalhou tornando assim, a posteridade dos mais novos como um mergulho em águas baixas do rio.
Destes debates, o resultado, segundo os pareceres do Adalberto, foi ficar sem efeito a excursão, e as futuras, que estava marcada para o mês do ano com menos dias, aconselhando a quem o ouvia, que «estas passeatas deixam de ter efeito imediato para serem substituídas pelas Termas do Cartaxo».
Mais do que nunca, temos que começar a sermos forretas, já que no presente, até os bancos já estão a dar um “chouriço a quem lhes der um porco”.
A conclusão, como lógica do amigo patusco e galhofeiro, é que o futuro está a ficar preto demais para quem trabalhou e foi obrigado a dar à entidade responsável o «guardar uma parte daquilo que não queria para que da poupança um mealheiro tivesse nos dias de fim de vida». Aos que argumentam o contrário, que se cuidem, porque os saloios costumavam dizer: «Quando começares a ver as barbas do vizinho a arder mete as tuas de molho».

Em busca do tesouro

Por: António Centeio
Xana era uma mulher vistosa até ao dia em que num acidente de automóvel ficou com mazelas, deixando-lhe deformações físicas. Nunca mais foi a mesma. Sua beleza exterior deixou de ter aquele encanto que tanto admirava e se orgulhava. Criou em si própria complexos, que quando olhavam para ela ficava nervosa. O médico acompanhante, e jovem como ela, dizia-lhe para consolo da sua alma “são apenas complexos”. Não estava longe da verdade. Continua sendo a mulher linda e encantadora que conheci, e por pouco, quase me apaixonava por ela.
O tempo é como uma “ borracha”, tudo apaga. Hoje é uma pessoa comum e já não liga quando a olham. Sempre foi uma mulher empreendedora. Mesmo sendo impossível deter o rio da vida e sem um centavo no bolso, mas com uma fé infinita, Xana, continua a ser aquela mulher que sempre admirei, tanto em corpo como em alma. Abriu uma clínica médica onde existem as mais variadas especialidades. De tal forma que tem o seu futuro garantido. Anterior ao acidente, costumava dizer-me que existe uma linguagem universal que está além das palavras. Se nós aprendermos a decifrá-las com esta linguagem conseguiremos decifrar o mundo. Tudo é uma coisa só, dizia ela.
Sempre disse que nunca se casaria. Achava o casamento um contrato burocrático com um pouco de hipocrisia à mistura. Mas o seu companheiro é algo que Xana muito preserva. Como a vontade é coisa que não lhe falta, busca algo que deseja e acredita. Agora dedicam-se os dois à filosofia com a companhia dos amigos mais chegados, nos quais me incluiu. São noites que perdemos mas justificadas pelo tempo utilizado.
Usamos para discussão o livro de Sofia. Um livro que demora a acabar mas que nos dá a hipótese de uma análise profunda.
Às vezes temos a impressão que há uma misteriosa energia que nos une ao mesmo tema. Alturas há, que estranhamos os nossos próprios instintos. Até Dudu a mascote de Xana, que nos faz companhia dá sinais para estarmos preparados para as surpresas da vida. Paulo, filosofa para que cada homem busque o seu tesouro e o encontre. Os sinais farão o resto, porque todos os dias são iguais, e quando todos os dias ficam iguais e, as pessoas deixam de perceber as coisas boas que aparecem nas suas vidas, não sabem perceber o sinal quando o Sol cruza o Céu.
Numa noite destas, Xana e Salém disse-nos que em determinado momento da nossa existência perdemos o controlo das nossas vidas e ela passa a ser governada pelo nosso destino. Numa altura da vida tudo é claro, tudo é possível, não temos medo de sonhar e desejarmos aquilo que gostaríamos de realizar. Olhem para mim: “1.72 de altura, uma vida de sofrimento e dor, sem filhos mas vivendo com um homem que me ama e amigos puros como vocês, onde alguns ainda sentem uma paixão por mim, não me devo sentir feliz?”
Então não é que descobrimos que a vida é constituída por símbolos, mensagens, sinais. São estes que nos regem a vida e nunca nos apercebemos porque não os vemos. Algumas vezes apenas os sentimos, como Xana, quando saiu de casa. Sabia que algo lhe ia acontecer no dia que ia buscar o seu diploma profissional a Lisboa. Desconfiou da emoção do papel que lhe daria o resultado do esforço exausto durante quase sete anos, mas não acreditou. Quando próximo de Aveiras viu vir um veículo pesado contra o seu carro então é que se lembrou daquilo que não sabia o que era mas que agora sabe